Carinho bobo

Madrugada. Coltrane tá no player, como sempre. Você do meu lado – como nunca. Cê me olha apertando os olhos e balançando a cabeça dizendo que não, enquanto vem devagar. Beijinho. Eu fico meio bobo, sem saber como reagir. São duas da manhã e a gente não se cansa um do outro.

Faz um pouco de frio lá fora, eu mesmo confiro na janela com vista praquela rua deserta e a mata lá no fundo. Pego um cigarro mas lembro que não fumo. Bobagem a minha, né. Eu sempre faço bobagem. Tem cerveja na geladeira e cruzo o quarto na esperança de não te acordar. Mas você está lá, me olhando, camuflada no escuro entre as cobertas brancas cobrindo e a tua pele preta.

Vontade de te morder.

Até esqueço o que ia fazer e mergulho de volta pra cama. Cê me olha. Faz de novo aquele carinho. Já nem ligo pros meus óculos, te olho tão de perto que nem preciso deles. Teu cheiro. Tua pele. Vou te tateando até onde não devo. Bobagem a minha: devo sim. E quero. E preciso. Toco.

Já são quase três da manhã e não me canso de estar ali, te olhando e sentindo, até pegar no sono. Sono.

Acordei.

Olho pro lado e você não está aqui. Coltrane tá no player, como sempre. Você não tá do meu lado, como sempre. São cinco da manhã e eu me canso de não termos um ao outro.

Eu sempre faço bobagem.