Bondade vazando, lágrimas caindo

Liga não, Berenice. Essas lágrimas são só seu amor e tudo que você tem de bom, transbordando de você.

Por mais que ela buscasse calma, não segurava o choro. Não se trata daquela gritaria desesperada ou daquela encolhida com os joelhos. A mocinha tremia de angústia, num chacoalhar quase imperceptível.

Berenice era uma menina tímida cheia de sonhos, morando numa casinha apertada daquela cidade grande. Grande como seus sonhos. Barulhenta como sua mente. Triste como seus olhos.

Pois é. Berê tinha olhos tristes. Ela e toda uma geração carente de amor.

Pontinho na multidão, ela se camufla e até parece uma pessoa normal. Sinal verde. Caminhar pela cidade era sinônimo dr parar o tempo todo. A chuva fina escorre pelo seu cabelinho cacheado, rubros como suas bochechas. Berê ergue a cabeça e respira. Cheiro de asfalto molhado – quase tão bom quanto terra. Em poucos segundos ela viaja para outra dimensão e se deixa levar pelos sonhos.

Sinal vermelho.

Carros param, barulho de freadas, gente reclamando. Anda, Berê! Não anda. Apenas pensa nas tristezas da vida, na maldade das pessoas. Sinal verde. Ela caminha pela última vez na vida.

Entre gotas de chuva, lágrimas são tempero pra água.