Banho invernal

Poderia ser mais uma história bonita de um bom vivant, flanando pela cidade e aproveitando o frescor de uma tarde de domingo. Mas não. É Ribamar desorientado numa esquina suja e silenciosa.

O céu azul e o barulho de uma bandinha de forró lá longe são o plano de fundo da ressaca. A TV ligada no apartamento de cima apresentava as atrações de São João. Qual será o hit dessas férias? Ribamar não sabe e sequer se lembra dos hits anteriores – do verão e de quaisquer outras estações.

Corpo pesado. Tontura. O bequinho fedorento já não serve de abrigo e Ribamar se sente exposto. Seu papelão não serve de abrigo nem pro sol.

Papelão.

Tá aí uma palavra que resume bem a sua vida, que às vezes parecia se resumir ao ridículo, à derrota, à patifaria da vida contra um homem desequilibrado.

A bandinha parou de tocar. A TV parece ter sido finalmente desligada, dando alguma paz praquela ressaca que insistia em ficar. Barulho de torneira. A dona da casa deve estar lavando a louça, ao contrário de Ribamar que só vive do descartável – uma metáfora perfeita para a sua vida, que poderia ter fim e ninguém notar. A janela abriu. A dona da casa dá um tchauzinho. Ribamar se esforça em abrir os olhos, cambaleando acena usando o braço inteiro.
Mal sabia ela que tudo que ele precisava era daquele balde d’água atirado na sequencia.

Ficar três semanas sem banho é sempre complicado.