Baixada Fluminense: uma rajada de mudanças violentas

Da minha casa “só” ouvi uma rajada. Vivi pra ver o dia que os carros fizeram a contramão no lugar onde cresci passando de bike e comprando revistas em quadrinhos.

Era um hábito quase semanal ir na banca e comprar revistinhas. Alguns anos depois toda aquela influência de Todd Macfarlane no Homem Aranha e outros desenhistas seria crucial pra eu decidir me tornar um designer – já que fui convencido que jamais poderia ser um artista visual com trabalho autoral.

Havia um gosto especial em ir lá aos domingos com meu pai – enquanto ele comprava pão eu podia ir na banca de jornal. Não posso dizer que era um ritual e até desconfio que a minha cabecinha começou a misturar memórias e formar essa imagem.

Mas tudo bem. Dá um quentinho no coração.

Comecei a estranhar no dia que fui sozinho comprar pão e havia um corpo sentado na esquina. Sim, sentado. Depois fiquei sabendo que era um homem que mexeu com a mulher de outro homem e a situação foi “resolvida” na bala.

Depois, um dia, presenciei um carro desgovernado batendo em uns cinco carros e descendo a rua a toda velocidade. Na semana seguinte, saindo de um casamento num salão de festas, presenciei pessoas fazendo sexo na rua sem nenhum pudor enquanto outros usavam drogas – e no dia seguinte também havia corpos. Eu só tinha uns 13 anos.

E assim foram os anos seguintes, com algumas situações mais pontuais de assassinatos de “gente que tava devendo”.

Nos últimos 3 anos tudo mudou.

Meu ônibus deu um cavalinho de pau na Dutra, a uns 600 metros de casa, por causa de um assalto. As pessoas imobilizaram o bandido e gritavam “mata ele! Mata ele!”. Na mesma semana tentaram me assaltar e também presenciei um assalto. Na semana seguinte não havia dinheiro no caixa eletrônico do bairro porque houve uma onda de assaltos. Assalto. Assalto pra todo lado. Essa sequência sinistra me deixou um trauma que dois anos depois eu entenderia que não era exagero.

Num espaço de tempo de seis meses minha rua teve três assassinatos, um roubo de carga e vários assaltos a pedestres.

Eu sou um pouco conhecido na Baixada Fluminense, especialmente entre artistas, por só falar de cultura – além de hoje produzir meu conteúdo autoral, aquele que me desanimaram na época das revistas em quadrinhos. A violência não é pauta pra mim.

Mas a narrativa dos últimos anos do meu bairro pode ser útil pra gente entender o motivo de não termos mais tantas ocupações de rua como gostaríamos. Eu não esqueço a vez que juntamos a galera pra curtir um som na Via Light e passou um homem armado levando vários objetos das pessoas. E que nesse mesmo dia uma amiga pediu pra eu acompanhar uma menina que exagerou na bebida, porque estava com medo dela ser atacada por outros homens que passavam pela rua.

A gente tá com medo sim.

Porque minhas crônicas no Facebook e meus vídeos no YouTube não vão diminuir a violência.

Porque nosso fazer artístico, na rua, é impotente na mira de uma pistola. Nossa poesia não assusta. A gente não anda armado – e às vezes nem sequer amado.

Do meu bairro só me restou a saudade de ir na banca comprar revistas em quadrinhos.

Não consigo mais escrever por hoje. Acabei de ouvir outro tiro. De verdade. Todo domingo é isso. E entre meia-noite e duas da manhã sempre ouço um tiro seco. Um só. É como se algum “justiceiro” saísse às ruas pra ceifar uma vida. Ou algum “157” não medisse esforços na hora de roubar.

Estamos trocando o quentinho no coração pelo frio na espinha.