Corria dos seus medos como um cachorro fugindo do banho. Ribamar não erguia a cabeca, se escondia entre garrafas cheias de líquidos vazios. Não andava: peregrinava. Medos maiores que sua própria existência.
Tinha medo da poesia.
Olhando pra trás na sua vida, Ribamar realiza que o álcool não deixou muitas memórias. Nem as sóbrias. Sem a estrutura normal de uma pessoa qualquer, estar sentado num banco de praça não era uma opção. Era uma condição. Sim, Ribamar estava condicionado a viver bêbado embaixo daquele banquinho, pedindo trocados em troca de rascunhos num papel.
Ribamar fazia poesia.
Se sua vida estava longe de ser um poema, não poderia dizer o mesmo da sua pinga companheira. Havia um mundo enorme embaixo daquele banco fedorento. Ribamar era um compulsivo, não conseguia parar de beber. E de escrever. E de morrer.
Um dia acordou morto. Não havia mais vontade de fugir. Havia nada dentro de si. Apenas tripas. Apenas ossos. Apenas sangue.
Apenas medo.
Acabou a pinga, os trocados, os poemas…
Ribamar cometeu o erro de se apaixonar.