A Roda Cultural de Mesquita foi barrada pela prefeitura de acontecer por um bom tempo

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Centenas de jovens se encontraram na ‘Praça da Telemar’ para celebrar o retorno da Roda Cultural de Mesquita. Foto: Wesley Brasil.

A volta de uma das maiores iniciativas do hiphop na Baixada Fluminense atraiu mais de mil pessoas para a Praça João Luiz do Nascimento, ou apenas ‘Praça da Telemar’ para os íntimos, no dia 14 de junho. A praça é palco de diversas atividades, mas a ocupação mais conhecida é a Roda Cultural de Mesquita, organizada há anos por uma galera que habita a própria cidade – os caras do Autonomia, grupo de rap que já até entrevistei (clique aqui pra assistir o papo). O evento vinha de um hiato de 8 meses sem acontecer no espaço.

Sua segunda edição aconteceria em 12 de julho, prometendo mais um grande encontro de jovens em torno da ocupação do espaço público, do debate de temas atuais e, claro, muita rima.

Aconteceria.

Em 28 de junho os organizadores já sinalizavam que uma produção mais elaborada era necessária para que o evento continuasse: ao invés de quinzenal, seria mensal; o evento teria um bar próprio, que ajudaria a custear sua realização afinal “evento gratuito não tem lucro porém tem custos e muita burocracia”, como explicaram em nota publicada no Facebook, onde davam o recado que “parar não está nos planos”.

Fora dos planos estava também o fiscal da Ordem Pública da prefeitura, que embargou a realização do evento. Na real, aparentemente a fiscalização foi em cima do evento e também dos ambulantes que atuavam ali vendendo bebidas e alimentos.

“Ia ser bolado, muita gente me marcou falando que ia. E em Mesquita a galera sempre comparece fortalecendo”, desabafa Gxlden, que seria a principal atração da noite (também entrevistei, clique aqui pra assistir o papo). O artista foi informado da não-realização na noite do evento, antes de sair de casa. Dessa vez não foi dia de baile.

“A gente estava montando o som quando o fiscal apareceu. Ele nos abordou para entender o que estava acontecendo, qual o evento, se havia documentação e se os superiores dele estavam cientes do evento”, explica Deluna, um dos organizadores da roda.

Sem resistência física, o equipamento de som foi desmontado e levado embora. Deluna explica: “o bar não pôde vender, até porque não tinha autorização de comerciante ambulante. Não rolaram vaias, mas muitos tentaram dialogar com o fiscal e os guardas – só que não cabia a eles a palavra final. Eles tinham a ordem de não deixar rolar o evento, por não estar de acordo com as normas da prefeitura”.

No dia seguinte, Deluna teve um encontro com um representante da Ordem Pública que o direcionou para o preenchimento da solicitação de um ‘Nada a opor’.

Sem absolutamente nenhuma previsão para que a Roda Cultural de Mesquita volte a acontecer, os organizadores terão uma longa agenda de reuniões e preenchimentos de documentos para voltar a tornar realidade um evento que acontece desde 2016 na cidade e teve pelo menos nove edições acontecendo sob a atual gestão municipal.

Lei Estadual 7.837/18 se mostrou inútil

Na presença do fiscal, a Lei 7.837/18 foi apresentada como um possível recurso para a realização do evento, mas ela não foi suficiente para liberar o baile.

No início do ano, a ALERJ aprovou uma lei que declara a cultura hiphop como patrimônio cultural imaterial do Estado do Rio de Janeiro. O texto, na prática, não muda em nada a vida de realizadores do hiphop.

Sem estabelecer uma agenda nem mecanismos para isso, ela “autoriza o Poder Público a assegurar e fomentar a cultura Hip Hop”. Também direciona os assuntos ligados ao setor para a Secretaria Estadual de Cultura – que não tem nenhuma gerência sobre os governos municipais para a liberação de uso do solo nem sobre a Polícia Militar ou Bombeiros para a emissão de outras liberações.

A lei autoriza ainda uma série de itens que, na prática, já eram atribuições da Secretaria Estadual de Cultura que deve “Incentivar a criação artística em todas as suas formas de expressão” entre outras.

O parágrafo 2º do artigo 3º impactaria diretamente no dia-a-dia dos organizadores locais de rodas culturais e foi vetado:

§2º As Rodas Culturais estão dispensadas da prévia autorização da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro – PMERJ, da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro – PCERJ e do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro – CBMERJ, desde que não haja montagem de palcos, arquibancadas e camarotes.

De acordo com militantes do hiphop, a criação da lei abre um precedente para a criação de editais voltados para o setor – apesar da Secretaria Estadual de Cultura afirmar não ter verba sequer para pagar editais anteriores, como o do carnaval de 2016 que ainda não foi pago.

Resistência pacífica

Mesmo com o cancelamento do evento, dezenas de pessoas resolveram ir para a praça. Alguns chegaram a formar rodas para rimar à capella ou apenas rodas de conversa.

Sem uma coordenação central, algumas pessoas chegaram com veículos e ligaram o som no máximo, largando o play no funk no último volume – como acontece às sextas-feiras não só na Praça da Telemar como em várias outras praças espalhadas pela Baixada Fluminense.

Parece que com ou sem evento, a juventude continua dando um jeito para ocupar o espaço público.

E nem precisa de apoio do governo pra isso.

Respeita os cria.