A primeira chuva do ano trouxe lágrimas que haviam sido esquecidas há muito tempo atrás. É que Berenice já nem lembrava mais da última vez que olhou nos olhos daquele rapaz, da última vez que sentiu o aconchego numa noite fria, do cafuné antes de dormir, do chá de maçã e canela ao som de um piano qualquer enquanto tinha conversas agradáveis sentada no tapete vestida com moletom.
Veio o calor do verão, foi-se a empolgação daquela paixão linda.
Era conveniente, né. Porque ele só queria alguém pra estar do lado quando estivesse chovendo. Ele só ligava pra ela quando batia a carência e a gente sabe que no outono todo mundo fica sensível e no inverno todo mundo quer aquecer o coração. Dia dos namorados tá bem ali, não à toa, em junho. O comércio lucra, os apaixonados sofrem.
Berê tá ali, sentada na beira da cama, olhando pro tapete vazio. Não tem cheiro de maçã nem de canela. Não tem aquele menino bobo contando piadas sem graça no pé do ouvido.
Berenice nunca foi tão feliz numa noite de chuva.