A intriga da cafeteria

Ele passou tipo uma estrela cadente, mas a troca de olhares foi tão bonita que parecia ter durado uns dez minutos. Berenice estava sentada tomando café com uma amiga, reclamando da tristeza dos dias, da solidão enquanto assistia um filme francês na noite passada tomando um sorvete que era caro toda vida por causa da sua intolerância a lactose.

Do lado de fora da cafeteria, aquele menino caminhava esbaforido pela calçada com seu sapatênis e meia soquete. Chovia fino na cidade que estava ainda mais cinza, com as marquises cheias e pessoas elegantes. Tanta gente de sobretudo e ele de bermuda. Guarda-chuvas e capas bem bonitas e ele sentindo as gotas de orvalho cair sobre sua cabeça.

Quando os dois pares de olhos se cruzaram, os relógios da cidade inteira pararam. Era uma obra de arte indescritível, percebida apenas por Berenice e aquele menino, que passou destrambelhado pela vitrine.

Ele voltou.

– Me dá um chai latte e algum doce bem gostoso, acabei de encontrar a mulher da minha vida – ele sussurrou para o caixa.
– Ela tá aqui? Quer dizer, ela está aqui entre nós?
– Sim! Preciso de ajuda! É uma janela do universo que se abre! Uma falha do tempo/espaço ou quem sabe ainda um arranjo do cosmos!

A moça na fila do caixa ao lado se interessou pela conversa. Ela só queria um espresso, puro, pra estragar depois com baunilha. Tinha mania de fazer isso toda tarde quando ficava cansada do trabalho na repartição. Era sempre o mesmo ritual estranho.

Do outro lado do salão, sem imaginar o que estava acontecendo, Berê cutuca a amiga. A excitação de rever o rapaz toma conta da mesinha e elas começam a conversar mais animadas.

– O senhor poderia levar um brigadeiro. É simples, barato e em caso de um fora não vai pesar tanto no bolso.
– Manda ver. O brigadeiro e o chai latte. Quanto te devo?
– Vinte.
– Droga, só tenho dezoito.

Rapidamente a moça ao lado pede licença. Diz que ouviu o problema financeiro, pede desculpas e entrega uma nota de dois ao rapaz. Ela ama brigadeiro e não achava justo alguém ficar sem a iguaria por causa de uma nota de dois.

Seus olhares se cruzam. Suas bocas sorriem. Os braços se abrem. Ele entrega o brigadeiro pra moça. Trocam telefones.

Ainda bem que ela não tinha intolerância a lactose.