Pra ser muito sincero, por um instante, pensei em começar o assunto naquela parábola chata e manjada pra cacete da lebre e a tartaruga. Que a lebre acelerou e perdeu o foco no meio do caminho, que a tartagura etc etc zzzzzz…
O grande lance é que os próximos parágrafos não se aplicam àqueles abençoados que formaram sua família antes dos trinta. Não tem nada a ver com a galera que numa noite chuvosa de sexta-feira à noite vira pro lado, dá um sorriso e ganha cafuné. Não é voltada praqueles que têm motivo pra chegar em casa com flores, pra comprar presente no dozedeoutubro, nem praqueles que dão café na cama ou ganham café na cama.
Mas calma, não vamos chorar, galera.
Ouvi dizer que aos trinta anos o círculo de amizades diminui drasticamente. Aqueles que antes chamávamos de amigos somem, outros vão ficando indisponíveis, outros se mudam. E todos mudam – de um jeito ou de outro.
Alguns de nós ficaram pra trás na corrida do amor. E por mais que a gente pregue liberdade, fale bonito pra caramba e tudo mais, vamos combinar aqui: tá todo mundo querendo a outra metade da laranja. É isso mesmo que você leu, querido leitor. A tal outra metade da laranja sim. Aquela pessoa que “te completa” (ai, que papo piegas!). Ok, fica muito mais legal dizer "quero alguém que me transborde", mas vem cá no meu ouvido e pode assumir: é papo de se completar sim.
Acredito cegamente que somos completos e outros clichês cult bacaninhas que as moças de saião gostam de ouvir carinhas barbudos e barrigudinhos dizer. Só que com o passar dos anos a gente aprende tanta coisa, passa a enxergar a vida de maneira tão ampla, que descobre também que ainda tem um montão de coisas pra aprender. Quanto mais eu sei, mais descubro que não sei – por favor me digam no Twitter qual é o autor dessa frase?
Quando percebo o quanto não saio mais de casa nas sextas à noite, entendo o porquê de continuar só. Ou melhor, quando finalmente resolvo sair da toca é que realmente entendo isso. É como se a minha geração estivesse desesperada por afeto, com pressa de fazer tudo. Deixaram o processo pra trás, deixaram as preliminares pro final.
Micaretaram o desenrolo.
Não tenho a menor paciência, hoje em dia, de puxar assunto com uma garota “pra pegar”. Não tenho esse talento nem pretensão. Nunca tive. Em tempos de demolição da macheza, interessar-se pelo sexo oposto com o único objetivo de acrescentar a si mesmo e trocar experiências tem sido bem mais interessante do que chamar pro paredão. Quero papo. Quero desbravar outras pessoas, descobrir o que posso acrescentar na vida delas e como elas podem me acrescentar em algo. E se rolar uma química aí sim: quero tudo e quero muito “tudo” que o tempo ao lado dessa pessoa me permitir – porque a cabeça é de cronista, mas o coração é de poeta.
E é aí que a gente volta naquele papo de outra metade da laranja. Eu e mais um monte de pessoas desistiram da procura pela tampa da panela, mas isso não significa que não estejam dispostas a cozinhar. Tem uma massa de gente por aí disposta a amar, mas que precisa de muito mais do que uma troca de olhares, duas palavras e entrar na mente.
Não acho que a gente tá ficando pra trás na corrida, nem acho que somos a lebre. Acho que nos perdemos no caminho, entramos na corrida errada, nos confundimos com as regras do jogo ou de repente o jogo não era pra nós.
Por via das dúvidas, deixa eu tomar um banho e ver qual é a boa dessa noite.
Vai que surge um papo bom, um clima legal…?