O coração é traiçoeiro, me disseram. É às vezes é mesmo. Se pra realizar sonhos ele é fundamental, o mesmo não se aplica em alguns outros assuntos, talvez.
Quem já se apaixonou perdidamente e ficou tão sem rumo a ponto de precisar voltar duas casas no Jogo da Vida, sabe o que estou dizendo. E não tem GPS que te aponte o caminho menos sofrido. Você está lá, com o coração aberto, vivendo seu próprio momento. Um belo dia você percebe que tem algo errado. Que não era pra ser, que a vida está gargalhando de você fazendo papel de bobo, investindo todas as suas energias em relações que não existem.
É aquele amigo chato, aquela amiga invejosa, aquele colega de trabalho, ou, a mais delicada das relações: o seu ‘grande amor’.
Como já dizia o Renan inquérito, ‘solidão é uma palavra singular que se sente no plural’ (ou algo assim). O mesmo se aplica ao amor. O problema é que chega um momento que o amor, querido leitor, é sentido no singular. E amor sozinho não funciona muito bem.
Oras, não quero escrever aqui sobre auto-ajuda. Mas é que às vezes a gente precisa refletir um pouco e ajeitar os trilhos, antes de descarrilar.
Lembro do meu primeiro amor. Eu era criança e durante anos nutri um amor platônico. Inexperiente, sofri sozinho por muito tempo até que um dia entendi que aquilo não funcionava se eu não fosse amado de volta. Cresci com isso na cabeça e de uma certa forma com o medo de nunca ser amado, ou pior: de amar mesmo. Conto nos dedos de uma mão só os amores (ou paixões) que vivi e ainda assim sobra dedo. E cada fim de relação, mesmo que platônica, deixou suas marcas.
Nem sempre a gente sofre porque quer. O problema é que nutrir esperanças, ir pra cama fazendo planos, bolar mil maneiras de “fazer dar certo” e tudo mais, acaba protelando o fim da dor. A esperança é sim a última que morre, e ela precisa morrer pra adubar o solo do coração e deixa-lo pronto pra crescer algo maior, mais bonito e que renda frutos – ou não, vai lá saber…
Lembro de quando fechei uma empresa. Foi muita energia, muitas histórias, muitos sentimentos envolvidos numa só coisa. Esse foi um dos dias mais difíceis da minha vida, é verdade, mas o dia seguinte se revelou uma coisa fantástica, sem peso nas costas e me proporcionou uma liberdade gigantesca.
Liberdade. É isso.
Talvez seja hora de parar de sentir quando a gente nao se sente mais à vontade pra isso. Amor bom é aquele que a gente se sente livre pra amar. Numa relação a dois, às vezes só um lado perde essa motivação e nem sempre dá pra recuperar isso. Aí vem a dor do término, da separação, do inventário, das memórias…
De repente você se vê tarde da noite com um pote de sorvete vestindo moletom, curtindo uma solidão, quando olha pra si e percebe que aquilo talvez nem seja tão ruim assim. E de repente se sente livre novamente.
Como é bom ser livre pra amar.