Descabelada. Se sentia protegida ao lado do rapaz magrinho que vestia boné de aba reta. Ô menina, teus cachinhos pretos, deitados nesses ombros caídos, não escondem sua tristeza.
Berenice disfarçava o sorriso amarelo. Baixava a cabeça, fingia cantarolar a música brega no rádio, olhava para os lados e procurava toda e qualquer distração possível. Tão franzina, tão indefesa, que o moço do seu lado não sabia nem como abraçar.
Vai ver, até desmontava se o amor fosse muito grande.
Das noites sem dormir, Berê herdou uma olheira feia pra chuchu. A contragosto passava maquiagem, tinha que ser bonita, tinha que sorrir, tinha que ser magra, tinha que tantas coisas, que o rapaz era só um item na lista das obrigações.
Passeava pra lá e pra cá com o namoradinho e vestia sempre um vestidinho florido que só mudava a flora das costuras.
Semana passada o menino quis terminar. Sem dinheiro, sem tempo, a culpa não é sua e um montão de outras desculpas. Em lágrimas, Berenice parecia que ia mesmo morrer. Aquele rosto branquinho, tão vermelho que dava dó. Chora não, Berê. Ele não te merece. Você tem um tantão de sonhos e ele não apoiava nenhum deles. Vai lá ser arquiteta, mecânica, engenheira ou até pedreira, por que não?
Anteontem avistei Berenice na rua. Blusinha preta, sem maquiagem e uma calça jeans nova. Tava dando confiança pra ninguém.
Só pra si mesma.