Começou no carnaval. Sim, porque toda história boa passa pelo carnaval e essa não seria diferente. Então, o carnaval.
Parece que nessa época a “ditadura gay” entra em vigor e é proibido ficar triste. Aquele monte de gente se expressando livremente, sem medo de encher os córnios e sair abraçando todo mundo, as pessoas usando seus corpos da maneira que querem e tal.
E purpurina pra cacete.
A cidade fica colorida e até os amigos heterotop se vestem de mulher. Inclusive uns ‘mais ousados’ dão até selinho uns nos outros. Tudo bem, é carnaval.
Oras, nunca fui de me jogar tanto assim no carnaval. Mas sempre fiquei impressionado com as gay nas festas, que dançavam sem serem julgadas – e todo julgamento, no fim das contas, não as afetava. Só quero rebolar o rabo melhor que eles. Minha parada não é o passinho. É o movimento pélvico.
É o movimento rebolático.
Sair na night é um terror. Apesar de entender o processo pra chegar nas gatinhas, me recuso a seguir o roteiro da linguagem corporal. Tem todo um ritual no mundo heterotop: você olha de um jeito tosco achando que é sensual / troca um olhar por 3 segundos / chega na gata contando uma mentira engraçada / se ela rir, estica o assunto um pouco pra ver onde dá / se ela se mantiver atenta, fala uma frase pronta e você tasca um beijo.
Me sinto preso no meu corpo, que não pode ser plenamente utilizado da maneira que eu gostaria. Se quebrar o pescoço pro lado e jogar a mão pra direita, me mandam direto pro psicólogo.
E foi o que fizeram.
Contei essa história toda pro médico, ou melhor, pra doutora.
Não é possível. Quero ser curado disso. Quero ter a cara amarrada e viver uma vida sem graça, (voltar a) usar camisa polo e escutar uns sertanejo universitário. Quero dar um rolé de carro com o som no último volume escutando Filipe Ret. Do jeito que elas gostam.
Ela riu quando falei isso. Daí mostrei como é o lance da xícara. Ela riu mais ainda. Então ela pediu pra eu mostrar como era o lance do movimento rebolático. Falei que ‘tô achando o nosso mundo problemático, cada um por si de um jeito sistemático’.
Ela concordou explicando que ‘o corpo humano tá ficando tão robótico, resultado desse estado pragmático’.
Saí da sessão curado.
No mesmo dia fui pra um baile e resolvi dançar tudo que eu queria. Rebolei e não foi pouco. Rebolei até dar cãibra nas pernas. Nem liguei pro que os outros caras heterotop iam achar, enquanto seguravam um copo olhando as mulher passando sem conseguir trocar olhares com nenhuma gata porque aparentemente elas cansaram do roteiro.
E eu lá rebolando.
Não é que uma gatinha veio puxar papo comigo? Sorri pra ela. Ela me contou uma mentira e eu fingi acreditar. Ela esticou o assunto. Fiquei atento. Aí ela me disse uma frase pronta:
“É o movimento rebolático”.
Me pegou.